terça-feira, 23 de junho de 2009

Parece um castigo...

Não sei onde começa o medo e acaba a insanidade. Tenho-me convencido que se trata de uma escolha, de um modo de vida, mas, no fundo, pensando bem vejo que todas as circunstâncias em que me encontro não surgiram do nada, em todas elas existiu a “mão” de uma força maior (qualquer que ela seja) que de uma forma mais ou menos directa me levaram até ao ponto em que estou.

Esta trata-se, provavelmente de uma das fases mais decisivas da minha vida e eu, sem saber bem porquê, não me sinto com capacidade para a enfrentar, pelo que fujo fechando-me no meu mundinho onde só existo eu, a música que não poderia faltar, livros, não todos, somente aqueles que realmente, pelos mais diversos motivos, me marcaram, aqueles com os quais realmente me identifiquei, que nestas alturas releio infinitas vezes, e, claro os meus textos.

Agora que penso nisso, reparo! Desde sempre escrevi, não sei bem porquê nem com que motivação, mas o facto é que ao longo de toda a minha vida (que não é assim tão longa quanto isso) escrevi por tudo e por nada em todo e qualquer lado (se for procurar nos meus cadernos de escola, em todos eles, sem excepção, encontro textos). Muitos desses textos foram perdidos ao longo do tempo, mas também não deviam ter muito interesse, tal como os que escrevo actualmente, porque, na verdade, embora sempre sentisse uma necessidade extrema de escrever nunca fui levada para temas intelectualmente evoluídos. Sempre escrevi, simplesmente, a cerca de mim e do que me rodeia, ou melhor, sempre me dediquei a transcrever para folhas de papel, que sabia à partida que ficariam esquecidas ou mesmo perdidas, sobre a minha visão, muitas vezes egoísta e mimada, do mundo.

Pergunto-me então, porquê escrever para o nada e sobre o nada, sabendo à partida que não vou voltar a ler aqueles textos que na altura de criação pareciam tão sentidos. Porquê retratar épocas, situações ou sentimentos de vida que não terão qualquer importância, pois, passados uns meses ou até dias já estarão esquecidos.

Pensando bem, talvez, esta necessidade se trate de uma fuga, seja apenas uma estratégia para colmatar o facto de não conseguir ser sincera para as pessoas com as quais convivo. Ok! O termo sincera é um pouco forte e desadequado, quando falo nisto refiro-me a transparência, a agir e falar sem qualquer subterfúgio ou capa, pois, só consigo expressar-me verdadeiramente e com clareza através de uma caneta e uma folha em branco. Provavelmente é um erro, visto que, esta condição poderá levar-me a uma situação em que estes objectos são os únicos “seres” que me conhecem, ou até, num caso mais extremo, os meus únicos amigos. Possivelmente se deixasse de escrever tudo se tornasse mais fácil e, assim, fosse obrigada a dizer às pessoas (reais) aquilo que digo às folhas soltas.

Mas… não consigo, é mais forte que eu, sem estes momentos de solidão no meio de uma multidão passados, apenas, a divagar sinto-me vazia, com a sensação de que se os meus pensamentos não forem registados acabarão por ser perdidos como se nunca tivessem existido. Já me disseram que tinha de encarar isto como um talento, mas na verdade eu vejo mais como um castigo, na medida em que, me afasta das pessoas, da realidade e me prende neste mundo estranho onde só existo eu e o meu turbilhão de sentimentos confusos e egoístas.

Bem, a verdade é que não sei do que se trata, mas, não tenho de questionar, apenas de aceitar, pois, por muito que queira não consigo fugir desta situação estranha que agora mesmo me arrastou para esta mesa de café solitária a escrever compulsivamente, apenas sobre o facto de não conseguir parar de o fazer.